O avanço das apostas on-line já produz efeitos sobre a renda das famílias, o consumo e o endividamento e passou a integrar a pauta de entidades empresariais e gestores públicos. O tema foi discutido durante encontro empresarial da Caciopar, na Sicredi Progresso, em Toledo, em apresentações que abordaram os impactos financeiros, econômicos e sociais das bets e apontaram para a necessidade de construir caminhos para reduzir as suas consequências.
Coordenador do Núcleo de Investimentos e Mercado de Capitais da Acic, Maico Sullivan analisou a relação entre apostas, consumo, educação financeira e custo do dinheiro. Segundo ele, o Brasil não enfrenta apenas uma questão de disponibilidade de capital, mas também de alocação dos recursos. Parte da renda direcionada às bets deixa de participar da formação de reservas, dos investimentos e do consumo. Em 2025, 25,2 milhões de brasileiros apostaram no mercado legal, cuja receita bruta foi estimada em R$ 37 bilhões. No mercado mundial, as apostas movimentaram US$ 111,2 bilhões e podem chegar a US$ 236 bilhões até 2033.
Maico chamou atenção para o comportamento financeiro associado às apostas. Enquanto investimentos exigem planejamento, disciplina e tempo, as plataformas trabalham com a expectativa de retorno imediato. Dados apresentados indicam que 17% da população apostou on-line em 2025, enquanto 36% investiu em produtos financeiros. Apenas 21% participou de educação financeira formal e 31% não possuía reserva financeira. “Com a Copa do Mundo de 2026, uma legião de novos dependentes em apostas foi criada”, afirma ele.
Atualmente, há cerca de R$ 1 trilhão em recursos de baixa produtividade financeira, parados em conta corrente ou na poupança, com nenhuma ou pequena rentabilidade. Ao mesmo tempo, a curva de juros, próxima de 14% ao ano nos prazos prefixados, encarece o crédito e aumenta o custo de oportunidade dos projetos produtivos, comentou Maico.
Saindo da economia
Para o presidente da Faciap, Flavio Furlan, a questão também precisa ser analisada pelo impacto sobre a economia. São bilhões que têm migrado do supermercado, do comércio e de outros setores para as casas de apostas. “Esse dinheiro deixa de circular, retrai o mercado e reduz oportunidades”, afirmou Furlan. O dado ganha outra dimensão quando considerado o perfil dos usuários: em um único mês, beneficiários do Bolsa Família movimentaram R$ 3 bilhões em apostas, segundo os números apresentados pela Faciap.
Flavio estima que entre 41% e 51% do total apostado possa estar no mercado ilegal. Segundo ele, o enfrentamento passa pelo fortalecimento da fiscalização, combate às plataformas clandestinas, educação financeira, responsabilização na publicidade e mecanismos de proteção às pessoas vulneráveis. Os mecanismos de proteção já registram adesão significativa. Mais de 500 mil pessoas recorreram à autoexclusão para impedir o acesso às plataformas autorizadas. O problema também é de saúde pública, conforme o presidente da Faciap.
Servidores
O prefeito de Toledo, Mario César Costenaro, apresentou dados de uma pesquisa realizada com servidores municipais. O levantamento mostrou crescimento dos empréstimos consignados, que passaram de R$ 1,58 milhão, em 2022, para R$ 2,57 milhões em 2026, alta de 62,6%. A pesquisa sobre apostas reuniu 363 respostas. Desse total, 47 pessoas disseram já ter apostado ou ainda apostar. Onze afirmaram utilizar atualmente essas plataformas.
O levantamento mostrou também que 91,9% consideram importante receber educação financeira sobre os riscos das apostas e 88,4% entendem que esse tipo de atividade prejudica a capacidade de economizar. Entre os comportamentos identificados, 25 pessoas disseram ter aumentado as apostas para tentar recuperar perdas e 12 afirmaram ter usado dinheiro destinado a despesas essenciais para apostar. Para Mario, os dados indicam a necessidade de combinar informação, prevenção e planejamento financeiro.
Entre as medidas apresentadas estão orientações sobre limites de gastos, autocontrole e identificação de sinais de risco, além da realização periódica de novas pesquisas. O prefeito reforçou a necessidade de esclarecer que apostas não constituem investimento nem representam fonte de renda. Para o presidente da Caciopar, Reni Fernande Felipe, a busca por soluções passa por reduzir os impactos das apostas sem perder de vista que o problema envolve não apenas o dinheiro destinado às plataformas, mas também suas consequências sobre renda, consumo, patrimônio e vida das famílias.
Crédito: Assessoria


