A discussão sobre a redução da jornada de trabalho voltou com força no Brasil. A proposta de mudanças na escala 6×1 e a PEC que trata da redução da carga horária semanal colocaram empresários, trabalhadores, sindicatos e governo em um debate que vai muito além da simples conta de horas trabalhadas. O tema mexe diretamente com produtividade, competitividade, qualidade de vida e sustentabilidade dos negócios. Quando um assunto dessa dimensão entra em pauta, o erro mais comum é analisar apenas um lado da história. Alguns defendem exclusivamente o ganho social. Outros observam apenas o impacto financeiro nas empresas. Mas decisões estruturais nunca acontecem isoladamente. Elas afetam toda a engrenagem econômica. É exatamente nesse ponto que a análise por cenários se torna importante. No meu método de Simulação de Cenários, toda decisão relevante precisa ser observada dentro de um sistema de variáveis críticas. Não basta olhar apenas para o presente. É necessário entender os possíveis efeitos futuros sobre produtividade, custos, comportamento das empresas, saúde emocional dos trabalhadores, competitividade e ambiente econômico (ainda mais em ano eleitoral…). Na prática, muitos trabalhadores convivem há anos com uma rotina pesada. Em alguns setores, especialmente comércio, serviços e operações industriais, a escala 6×1 reduz drasticamente o tempo de convivência familiar, descanso e recuperação física. O resultado aparece silenciosamente no ambiente corporativo: aumento do desgaste emocional, ansiedade, baixa motivação e perda gradual de engajamento. As empresas também sentem isso. Funcionários esgotados produzem menos, erram mais, adoecem mais e permanecem menos tempo nas organizações. O custo invisível da exaustão vem crescendo dentro dos negócios. Muitas vezes, o empresário olha apenas para a folha salarial, mas não percebe o impacto da rotatividade, do afastamento médico e da perda de produtividade causada pelo desgaste contínuo. Por outro lado, imaginar que apenas reduzir a jornada resolverá automaticamente os problemas sociais também é uma visão simplificada demais. Toda mudança estrutural precisa ser sustentada por produtividade. E esse talvez seja o ponto mais importante da discussão. Os países que conseguiram reduzir jornada sem perder competitividade fizeram isso porque investiram fortemente em tecnologia, qualificação profissional, automação e eficiência operacional. Ou seja, passaram a produzir mais valor em menos tempo. O desafio brasileiro é justamente esse. Grande parte das empresas nacionais já trabalha pressionada por carga tributária elevada, juros altos, burocracia e insegurança jurídica. Pequenos e médios empresários, especialmente, vivem diariamente equilibrando custos, fluxo de caixa e dificuldades operacionais. Em muitos casos, qualquer aumento de custo já compromete margens extremamente apertadas. Dentro de um cenário mais otimista, empresas conseguem reorganizar processos, usar mais tecnologia, automatizar tarefas repetitivas e melhorar a produtividade das equipes. Nesse ambiente, a redução da jornada pode gerar benefícios importantes tanto para os trabalhadores quanto para os próprios negócios. Funcionários mais descansados tendem a ser mais criativos, mais produtivos e mais comprometidos. Além disso, o novo mercado de trabalho mudou. As novas gerações valorizam equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Qualidade de vida deixou de ser apenas um benefício adicional e passou a fazer parte da estratégia de retenção de talentos. Empresas que entenderem isso antes poderão construir ambientes mais saudáveis e competitivos. Mas existe também um cenário mais delicado. Empresas que dependem fortemente de mão de obra operacional contínua, como supermercados, hospitais, frigoríficos, indústrias e parte do setor logístico, podem enfrentar dificuldades maiores para absorver a mudança rapidamente. Em muitos casos, reduzir jornada significa contratar mais pessoas, ampliar escalas ou aumentar custos operacionais. E quando os custos sobem sem aumento proporcional de produtividade, algumas consequências costumam aparecer: aumento de preços, redução de contratações, aceleração da automação e crescimento da informalidade. A análise de cenários mostra justamente isso: toda decisão econômica gera reações em cadeia, que respondem e alteram a dinâmica do próprio cenário. O empresário brasileiro não é contrário à qualidade de vida dos colaboradores. Pelo contrário. A maioria entende que pessoas equilibradas emocionalmente produzem melhor. O problema está em como fazer essa transição sem comprometer a sustentabilidade financeira das empresas. Talvez a grande pergunta não seja apenas “trabalhar menos”, mas sim “como produzir melhor”, para podermos pensar em trabalhar um número menor de horas (que não significa, necessariamente, trabalhar menos em produção efetiva). O mundo corporativo está entrando em uma nova lógica operacional. Inteligência artificial, automação, análise de dados e digitalização começam a transformar produtividade em algo menos dependente da quantidade de horas trabalhadas. Durante décadas, produtividade era associada ao tempo dentro da empresa. Hoje, eficiência está cada vez mais ligada à inteligência dos processos e resultados apresentados. Isso muda completamente o debate. Em muitos casos, o problema não está na quantidade de horas, mas na baixa eficiência operacional, em processos mal estruturados, excesso de burocracia, reuniões improdutivas e modelos antigos de gestão, que gastam muito e entregam pouco. Empresas modernas já começam a perceber que produtividade sustentável depende de equilíbrio humano. Funcionários que possuem tempo para família, lazer, descanso e desenvolvimento pessoal tendem a manter melhor capacidade cognitiva, criatividade e relacionamento interpessoal. Isso influencia diretamente inovação, atendimento, vendas e ambiente organizacional. Ao mesmo tempo, governos precisam compreender que riqueza não nasce de decreto. Ela depende de produtividade com segurança jurídica, para incrementar performance econômica favorável a redução das horas trabalhadas. Quando o ambiente empresarial perde competitividade, toda a sociedade sente os efeitos, ainda mais se o governo for um esbanjador, que gasta mais do que arrecada, e, ainda pune quem produz riqueza. Dentro da lógica do Método Rojo de Simulação de Cenários, a discussão sobre jornada de trabalho exige equilíbrio estratégico. Nem radicalismo empresarial-financeiro, nem romantismo-econômico. O desafio está justamente em encontrar um modelo sustentável, capaz de preservar empresas competitivas e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida das pessoas. O cenário mais inteligente talvez seja aquele onde tecnologia, produtividade e gestão eficiente permitam que o trabalhador tenha mais qualidade de vida sem destruir a capacidade competitiva das empresas. Pois, se o trabalhador entrega mais em menos tempo: a redução da jornada é melhor para reduzir custos da empresa. Porque, no final, empresas saudáveis dependem de pessoas saudáveis. E colaboradores emocionalmente destruídos dificilmente sustentarão crescimento, inovação e bons resultados por muito tempo.
Recomendo fortemente a leitura do texto valioso e certeiro de Caio Gottlieb no link: https://www.bemparana.com.br/opiniao/a-palavra-que-o-brasil-nao-aprendeu/
Concluo com a frase de Adam Smith, que diz que "nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a maior parte de seus membros for pobre e miserável".
Claudio Antonio Rojo, é administrador, professor da UNIOESTE, com pós-doutorado em Finanças, na área de mercado de capitais, pela FEA – Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo. Criador do Método Rojo de Simulação de Cenários. Autor de diversos livros nas áreas de negócios. Contato: (45)999711570. Instagram: prof.rojo